sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Andar por aí

Vagueio num sem fim de emoções repartidas entre sensações e desordens do meu ser…O jardim encontra-se cheio de flores, a grande maioria de tons verdes sem nome, sem identidade, sem idade, sem duração, sem ao menos serem capazes de dizer nada ao nada da sua existência. A visão de alto para baixo era realizada de forma segura, austera, mecânica tornando-se artificial num artifício de odores e cores conferindo-me um espectáculo triste e desgostoso, o marasmo proclamava-se num tom mais elevado, o cinzento tomava partido do verde, o anonimato apoderava-se dum ser quase perdido, o jardim cada vez mais homogéneo ajustava-se a uma natureza olvidada. Natureza imensa, enigmática, insondável, impenetrável, com a sua grandeza excluiu à partida toda a cultura que pudesse vir a molestar e corromper o tão afável jardim concebido de uma pareceria inesgotável com Deus.
De entre toda aquela imensidão brota algo dissemelhante de todo aquele jardim, de cor vermelha, de estética apurada e refinada envolta de um manto verde com vultos castanhos de espinhos aguçados…O pasmo foi total, tomei a liberdade de me curvar de modo a conseguir visualizar tamanha beleza de entre todo aquele sem fim de tudo, olhando sob o mesmo plano a excelência e graciosidade eram ainda superiores ao até então estabelecido, o seu encarnado representativo da sua essência fulgurava com intensa paixão que me derrubou do alto…não poderia ficar indiferente a tamanha beldade que nem Adónis pôde conceber, fitando o olhar, ergo a cabeça para o alto e interrogo-me sobre a autenticidade de ser tão misterioso? Observando contínuo a minha caminhada sobre este ser, seus espinhos conferem-lhe protecção e resguardam a sua essência, as suas folhas floreavam-na de um modo afectuoso…perante isto minha mente eleva-se ao Olimpo tentando levar meu coração, mas…meu coração opõe-se linearmente à ideia da mente, a cor encarnada invadira meu ser sem a minha percepção, meu coração batera mais depressa, como que me alertando de algo sem precedentes, era tamanha a movimentação no meu interior que tive que solicitar a ajuda do meu coração, onde olhar tacto nem pensamento chegariam, ele reinaria sobre este novo mundo dentro de mim fora do meu alcance.
A divisão era cada vez mais profunda, a mente vagueará pelo Olimpo em busca de um esclarecimento para aquele ser, meu coração controlara minhas entranhas, e meu corpo era um mero objecto para tamanha agitação sentimental. Enquanto isso o olhar perdia-se por entre todo aquele encarnado, minha mão ordenada pelo coração tomara um plano de destaque ao acariciar a essência daquela flor, minha mente desaparece do Olimpo desafiando a teoria da velocidade da luz, e concentra-se naquele gesto, o olhar tornasse a janela para coração e mente comungarem juntos de tal acontecimento espectacular, a grandiosidade momentânea apoderasse de todo o meu ser, o controlo até então hierarquicamente estabelecido é desfeito como se de uma anarquia se tratasse, mas coração e mente não conferem importância ao acontecimento paralelo de uma dimensão escatológica...era tamanha a felicidade daqueles dois seres, uma brisa pairava no ar impelindo o jardim a ver o acto de um conhecimento banhado pela admiração, generosidade e amor vividos pelos dois…
O jardim maioritariamente de tons verdes e sem nome tornara-se num templo habitado por uma criatura com um nome, uma identidade, com uma idade e capaz de dizer tudo ao tudo que ela representa.

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